O Amor é Um Grito · página 120

Andrei da Rosa

LINHAS IRREGULARES

                    a linha tu passas pelo urdume
              em tua mão, a agulha não vacila
                     entre seus dedos a lã faz morada
                       tear no colo, o tecelão assume

                  teces, concentrado, de alvorada a alvorada
                  da lã que não só da ovelha esquila
                     tapeçaria que não só de fios é feita
                nosso amor enrolado no urdume do tear

           tece, amor meu, que também tramo em linha imperfeita
                        linhas tortas que tento pentear
        lágrimas arrancadas pelo vento, sorrisos de um verão abafado
          memórias serpenteando a tapeçaria nunca acabada

              tece, amor meu, que também tramo coreografado
           uma tapeçaria para ti, de paixão exacerbada
         melancolia romântica e tristezas superadas, pois amor meu
      nossas obras degeneradas, exageradas, inesperadas, acaloradas

        nunca ficarão prontas, a linha perpassa o urdume outra vez
               tua mão com a agulha percorre concentrado
             o desenho enlinhado do pôr do sol no guaíba
          lembrança de dias passados, as mãos dadas com leveza

              tece, amor meu, que contigo tramo linhas infinitas
            imperfeitas, coloridas como aquele primeiro pôr do sol
         tapeçarias expostas para nós, em nossas memórias inscritas
                um amor ilustrado em lã.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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