Felipe Rodrigues
OS DESERTOS DA MEMÓRIA E DO DESEJO
No princípio era o Nome.
Oco, singelo e informativo
Como quase todas as palavras
- Mas tão doce e musical!
Na boca ou na mente, pensado ou não -
De repente, muito menos que de repente,
Foi-se enchendo...
De vozes, imagens, cheiros, pulsações, ansiedades...
Foi-se transformando...
Em sugestões, bobagens, medos, saudades...
E do Nome, a palavra compartilhada,
Nome de tanta gente!
Fez-se A Pessoa.
(Era quem chamavam
“X.”.)
Mas de repente, muito menos que de repente,
O tempo cuidando de sarar os desejos e as memórias...
- Esvaziar o conteúdo -
Da Pessoa faz-se Nome, e do Nome,
Uma palavra qualquer:
Oca, singela e (des)informativa
Como as palavras todas.
Quando não se quer, nem se pode mais voltar
À Pessoa e ao Nome desencarnados,
Perdidos lá... Ontem.
E o Nome, que era só dela,
A Pessoa,
E outras palavras,
Usadas só para ela,
Então se tornam de todas as pessoas,
De qualquer pessoa,
De nenhuma
Quando quase já não fazem eco ao meu coração.Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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