O Amor é Um Grito · página 42

Felipe Rodrigues

OS DESERTOS DA MEMÓRIA E DO DESEJO

No princípio era o Nome.
Oco, singelo e informativo
Como quase todas as palavras
- Mas tão doce e musical!
Na boca ou na mente, pensado ou não -

De repente, muito menos que de repente,
Foi-se enchendo...
De vozes, imagens, cheiros, pulsações, ansiedades...
Foi-se transformando...
Em sugestões, bobagens, medos, saudades...

E do Nome, a palavra compartilhada,
Nome de tanta gente!
Fez-se A Pessoa.

         (Era quem chamavam
                      “X.”.)

Mas de repente, muito menos que de repente,
O tempo cuidando de sarar os desejos e as memórias...
- Esvaziar o conteúdo -
Da Pessoa faz-se Nome, e do Nome,
Uma palavra qualquer:
Oca, singela e (des)informativa
Como as palavras todas.

Quando não se quer, nem se pode mais voltar
À Pessoa e ao Nome desencarnados,
Perdidos lá... Ontem.

E o Nome, que era só dela,
      A Pessoa,
E outras palavras,
        Usadas só para ela,
Então se tornam de todas as pessoas,
       De qualquer pessoa,
       De nenhuma

Quando quase já não fazem eco ao meu coração.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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