Kathleen Loureiro
BOCA LIVRE
E os olhos daquela criatura me comiam crua e ao molho. E tinha uma certa delicadeza no jeito que ela me mastigava, Parecia sem fome e ao mesmo tempo saboreava como um sedento a água no deserto, não sei se sentia o gosto amargo do arrependimento ou se gostava do gozo de me ver nua. Queria saber o gosto que eu tinha na boca dos olhos daquele ser. Sei que eu tinha uma certa beleza e que fiz ele feliz por instantes, mas não entendia o que ele estava esperando. Talvez, estivesse esperando um pouco mais de sobriedade da minha parte. Talvez, apenas um pouco mais de paixão, para assim querer ficar. Ou, no fundo, fazer não ficar. E mesmo nesse meio termo, o meu corpo meio aguado e salgado os olhos daquela criatura percorriam de cabo a rabo. Esperando o que quer que fosse, para parar de me mastigar e, por fim, me engolir.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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