O Amor é Um Grito · página 182

Leonardo Augusto

QUANDO VOCÊ ME MOSTROU BRANDURA

sou enólogo de amor desde o rompimento do cordão
então veja bem, conheço amor.

o que eu não conheço — perdão,
o que eu não conhecia é:

uma noite confessei um pecado
era um copo de veneno que me dei de beber
fiz sem razão, fiz sem nexo,
e fiz porque podia pecar.
uma noite confessei um pecado
e ciente de todos os amores que bebi
eu sabia o resultado da angústia:

eu pensei,
agora você vai concluir o serviço
agora você me desonra e me destrói.

uma noite confessei um pecado
sem lágrimas e sem euforia
era um erro efêmero e um descuido casual
eu me arrependi e quis fazer diferente.

uma noite confessei um pecado
na luta por fazer algo diferente
e esperar outro resultado
que não daquele tipo de amor que eu tanto conhecia;
duas mãos no meu pescoço que gritariam,
“você é a extensão do seu pecado”.

uma noite confessei pra ti
algo que não gostava em mim
e você fez o que eu não sabia
que era possível fazer.

você me olhou de volta.
seus dedos enormes cobriram minhas mãos
seu semblante torto e ameno
a decepção esperada ali presente
mas também outra coisa.

eu conhecia amor
mas não conhecia sua extensão:
você me deu perdão.
fomos pra casa. você me amou.
e você me deu perdão.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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