Letícia Zampiêr
(ÚLTIMA) CARTA DE AMOR
escrevo você como uma oração apelo ao vocativo para tentar te invocar, te ressuscitar seu pai diz que você não está mais ligado a esse plano isso não me impede de te buscar nas cartas de tarot, nos bilhetes a mão nos móveis e nos quadros que você tocou e em todos os anos que não vamos ter queria te contar que ela terminou comigo não achou bonito meu desejo de vida, como você achou, mas só porque não era uma vida com você me arrependi de não ter tomado o café na casa que só existiu por dois meses e agora está desmontada em caixas duas delas aqui, habitando um lugar que nunca te deixei entrar, mesmo você tendo tentado ainda não consegui colocar na parede os quadros que habitavam a sua tudo que me sobra são livros e quadros e ainda assim sinto que não mereço te escrevi em dois livros e ainda sinto que não existo, porque nunca ouvi seus suspiros noturnos ou o espirro gripado ou o barulho do vômito depois de uma noite de vinho e drogas e música e risada e amigos nunca te vi sem meias nunca te vi chorar nunca vou poder te ver verdadeiramente te ver te vi amarelo sob o pano branco a pele ainda machucada do barbeador eu não lembro a cor da sua camisa lembro a cor da camisa do meu aniversário mas não sei a cor que queimou com a sua pele que se derreteu no forno com a madeira e o seu perfume que foi o mesmo até o fim eu não me lembro porque eu fugi no livro eu te escrevi “Se eu for ao velório, de repente vou existir” eu só existo porque você morreu e com a sua morte, voltei a te inventar
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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