O Amor é Um Grito · página 278

Letícia Zampiêr

(ÚLTIMA) CARTA DE AMOR

escrevo você como uma oração
apelo ao vocativo para tentar
te invocar, te ressuscitar
seu pai diz que você não está mais
ligado a esse plano
isso não me impede de te buscar
nas cartas de tarot, nos bilhetes a mão
nos móveis e nos quadros que você tocou
e em todos os anos que não vamos ter
queria te contar que ela terminou comigo
não achou bonito meu desejo de vida,
como você achou, mas só porque não era
uma vida com você
me arrependi de não ter tomado o café
na casa que só existiu por dois meses
e agora está desmontada em caixas
duas delas aqui, habitando um lugar
que nunca te deixei entrar, mesmo
você tendo tentado
ainda não consegui colocar na parede
os quadros que habitavam a sua
tudo que me sobra são livros e quadros
e ainda assim sinto que não mereço
te escrevi em dois livros e ainda sinto
que não existo, porque
nunca ouvi seus suspiros noturnos
ou o espirro gripado
ou o barulho do vômito depois de uma noite
de vinho e drogas e música e risada e amigos

nunca te vi sem meias
nunca te vi chorar
nunca vou poder te ver
verdadeiramente te ver
te vi amarelo sob o pano branco
a pele ainda machucada do barbeador
eu não lembro a cor da sua camisa
lembro a cor da camisa do meu aniversário
mas não sei a cor que queimou com a sua pele
que se derreteu no forno com a madeira
e o seu perfume que foi o mesmo até o fim
eu não me lembro porque eu fugi
no livro eu te escrevi
“Se eu for ao velório, de repente vou existir”
eu só existo porque você morreu
e com a sua morte, voltei a te inventar

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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