O Amor é Um Grito · página 252

Maria Carolina

GATO PRETO

amanheceu com um gato preto morto na porta da livraria vestígio da sexta
feira treze que aconteceu em janeiro, em uma manhã cheia de desesperança,
vejo você na estante, caminho e sinto o meu coração partido, fatiado,
mutilado, sufocado, tem um nó na garganta uma irritante lembrança uma dor
silenciosa gritante, sofro e canto não choro, mas deveria, secar você do peito,
eu sinto tanta tristeza e desejo
espero todo dia encontrar por acidente o seu olhar entre os corredores
do outro lado da avenida, ou na direção oposta
uma coincidência que apenas poderia acontecer com nós dois
o adeus é tão difícil quando não acontece
por um descuido cai em seu mundo de fantasia
estou presa a uma possibilidade
senti o uso, descarte, menti, eu me sinto nada
não sou nada
nunca serei nada
tenho em mim todos os sonhos do mundo
solitária

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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