Mattos Rodrigues
O BOTÃO, A FLOR, A ABELHA
Um vento insular revolvendo as areias em que cozinha meu corpo a fome de Cronos a fome a brasa o bolor dos anos o mel e o leite vinho e vinagre fenece a grama, na barriga da areia fenece a areia, na boca do mar morrerá o mar na ponta do último olho morre a mão que redige poesia morre a língua seca a saliva vá com deus último totem Mas o vento vem, tarde de terça, terna melodia da voz dela me contando um sonho eu mergulho na tempestade negra de seus cabelos e colho um instante que há de salvar toda a história terno presente, fatalmente rebelde um instante bailarino desvairado tão rebelde e presente que jamais termina: um beijo, sempre um sempre agora que justifica toda a vida Valsamos rua afora uma cidade irreal, ela e eu, alheios ao areal, sumamente desleais ao tempo, eu sei, como soubera o vento: nosso amor é o vinho sempre doce, é o leite sempre fresco a abelha, a flor, o botão a última profanação da evanescência legislativa do real o primeiro gesto, sem princípio a última hora que nunca termina
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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