O Amor é Um Grito · página 243

Mattos Rodrigues

O BOTÃO, A FLOR, A ABELHA

Um vento insular revolvendo as areias
em que cozinha meu corpo a fome de Cronos
a fome a brasa o bolor dos anos
o mel e o leite vinho e vinagre
fenece a grama, na barriga da areia
fenece a areia, na boca do mar
morrerá o mar na ponta do último olho
morre a mão que redige poesia
morre a língua seca a saliva
vá com deus último totem
Mas o vento vem, tarde de terça, terna
melodia da voz dela me contando um sonho
eu mergulho na tempestade negra de seus cabelos
e colho um instante que há de salvar toda a história
terno presente, fatalmente rebelde
um instante bailarino desvairado
tão rebelde e presente que jamais termina: um beijo,
sempre um sempre agora
que justifica toda a vida
Valsamos rua afora uma cidade irreal, ela e eu, alheios
ao areal, sumamente desleais
ao tempo, eu sei, como soubera o vento:
nosso amor é o vinho sempre doce,
é o leite sempre fresco
a abelha, a flor, o botão
a última profanação da evanescência legislativa do real
o primeiro gesto, sem princípio
a última hora que nunca termina

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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