O Amor é Um Grito · página 198

Renata de Alcântara Stuani

SERÁ AMOR?

A poeta tratou do sangue menstrual da sua filha
O vermelho jorra profundamente dentro do fogo
A poeta gargalhou com sua avó na cozinha
Riu daqueles que não sabem de nada
Riu daqueles que sabem de tudo

A poeta desmascarou um desejo da sua bisavó
“Ora, as línguas de carne não mais fazem doer”

Antes de matar-se, às seis da tarde,
a poeta tratou de limpar bem o chão
onde deitamos, eucaristicamente

Do seu funeral a poeta salvou o ramalhete
e com seu escafandro mergulhou
na imensidão mais negra mais negra
do mar

Roubou do oceano uma estrela cor de pele de bebê
Guardou-a dentro da boca, como um segredo

A poeta recebeu como um soco
a culpa e a des- culpa por tudo o que existe

Eles batem à porta. Agora é a hora:
“Venham todos, a mesa está posta”

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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