Renata de Alcântara Stuani
SERÁ AMOR?
A poeta tratou do sangue menstrual da sua filha O vermelho jorra profundamente dentro do fogo A poeta gargalhou com sua avó na cozinha Riu daqueles que não sabem de nada Riu daqueles que sabem de tudo A poeta desmascarou um desejo da sua bisavó “Ora, as línguas de carne não mais fazem doer” Antes de matar-se, às seis da tarde, a poeta tratou de limpar bem o chão onde deitamos, eucaristicamente Do seu funeral a poeta salvou o ramalhete e com seu escafandro mergulhou na imensidão mais negra mais negra do mar Roubou do oceano uma estrela cor de pele de bebê Guardou-a dentro da boca, como um segredo A poeta recebeu como um soco a culpa e a des- culpa por tudo o que existe Eles batem à porta. Agora é a hora: “Venham todos, a mesa está posta”
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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