O Amor é Um Grito · página 82

Ana Oliveira

TABLADO

As cortinas se fecham, aplausos, pessoas admirando o perfeito espetáculo
proporcionado por um ventre choroso por ti. Sorrir parece difícil, mas venci
o desafio. Sorrindo às dores do meu tablado barulhento, que todas as noites
apresenta espetáculo de sapateado, riscando a madeira surrada pelo tempo,
corroída pela umidade e que parece escorregadia em noites de chuva. Todo
artista pinta o mundo como vê e eu, nessa insanidade que chamam de amor,
pintei uma aquarela com cores que ainda não foram criadas. Abandono o palco
em direção à porta onde devo deixar meu casaco. Está frio lá fora, ainda assim,
não posso levá-lo. Tiro os sapatos redondos, estão a me apertar os pés. Os
laços de cetim, arremessei pelos corredores. A peruca vermelha carmesim,
lancei pela janela, devo acolher meus grisalhos. A maquiagem, não pude tirar.
Minha alma, toda vez que chora, se coloca a lembrar de ti e sempre uma nova
lágrima é pintada. Um sorriso desenhado com delicadeza a esconder saudade
gotejante. Seria esse tal amor uma nascente?

De todos os amores que nunca vivi, você foi o único que inventei.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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