Gustavo Coelho Moretzsohn
A INSENSÍVEL SENSIBILIDADE DE UM DEUS QUE DANÇA PARA AMAR DEPOIS
A insensível sensibilidade de um Deus que dança para amar depois.
O amor não comporta o pé na porta de um coração partido.
Feridas não saram com o tempo que corre lento pra lugar nenhum.
A dor desperta de perto não dói.
E o poço sem fundo do mundo se enche com as lágrimas que evaporam.
Qual o segredo da alma que sofre em silêncio como penitência?
Que sofre pela triste sorte dos gênios esquecidos.
Feliz do poeta que tem no vazio divino boa companhia.
O que será da humanidade que deixa esvair pelos dedos o segredo não lido
em cada poesia?
Em cada choro esquecido que ficou para trás?
Em cada sentimento suprido por paliativos artificiais?
Triste de quem diz que sofre mas não sofre escondido.
De quem mente que sente sem sentir coisa alguma.
Escravos estéreis de uma alma enjaulada pra fora do corpo.
Sem pouso ou morada.
Vai chegar a hora de confrontar a demora com o desejo de existir.
E o espírito cansado vai reviver toda a dor que o amor exilado guardou para
si.
Mas se manteve calado.
Com medo do destino da sina que nunca sorri.
Não há razão para a expansão do universo.
Senão a criação de um Deus que dança para amar depois.
É Dele o agora que habita esse peito que chora.
De ontem até o resto de toda a eternidade.Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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