Leonardo de Oliveira
ACHEI QUE ERA TARDE PRA FALAR DE AMOR
Achei que era tarde pra falar de amor. Falei de poetas obscuros, de guerras (a da língua e as de sangue), falei da rotação de mercúrio e sua tendência de mostrar sua pior face ao sol, falei de máquinas de enfrentar o mundo, e sim falei de amor, seus ruídos, dissonâncias e seus pássaros cromáticos. Revoadas! Esqueci-me desse dialeto, dialeto das aves, atravessado de espinhos, doces espinhos que carrego em cofres, mas o amor ainda habita os ermos da palavra e das mãos. Há uma usina de auroras que pende do olhar, dos olhares que se cruzam, transatlânticos, e atravessam antigos oceanos, o largo oceano que habita o entrespaço da pleura e do músculo acima (seus beats de litoral de estrela). Sim, o mar é paralelo ao amor, os 7 amares, ali sobrevivemos a lentos naufrágios: somos submarinos nucleares de osso e pelo. Não navegamos. Há mares, mergulhamos, há mares. Quando estou contigo posso dançar sem medo dos antebraços e seus movimentos misteriosos. Ignoro os antebraços. Te carrego em nuvens com formatos estranhos, crio nuvens, deságuo chuva sobre cidades perdidas, e a aridez das ruínas. Há mares, registros arqueológicos, conchas e trilobites, do que um dia foi uma só onda. Houveram dilúvios, salgamos a boca. Erguem-se continentes, a paisagem se transforma, geologia dos corpos, mas meus olhos se voltam ao mar. Não é tarde pra falar de amor.
Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.
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