O Amor é Um Grito · página 64

Leonardo de Oliveira

ACHEI QUE ERA TARDE PRA FALAR DE AMOR

Achei que era tarde pra falar de amor. Falei de poetas obscuros, de guerras
(a da língua e as de sangue), falei da rotação de mercúrio e sua tendência de
mostrar sua pior face ao sol, falei de máquinas de enfrentar o mundo, e sim
falei de amor, seus ruídos, dissonâncias e seus pássaros cromáticos. Revoadas!
Esqueci-me desse dialeto, dialeto das aves, atravessado de espinhos, doces
espinhos que carrego em cofres, mas o amor ainda habita os ermos da palavra
e das mãos. Há uma usina de auroras que pende do olhar, dos olhares que
se cruzam, transatlânticos, e atravessam antigos oceanos, o largo oceano que
habita o entrespaço da pleura e do músculo acima (seus beats de litoral de
estrela). Sim, o mar é paralelo ao amor, os 7 amares, ali sobrevivemos a lentos
naufrágios: somos submarinos nucleares de osso e pelo. Não navegamos. Há
mares, mergulhamos, há mares. Quando estou contigo posso dançar sem
medo dos antebraços e seus movimentos misteriosos. Ignoro os antebraços. Te
carrego em nuvens com formatos estranhos, crio nuvens, deságuo chuva sobre
cidades perdidas, e a aridez das ruínas. Há mares, registros arqueológicos,
conchas e trilobites, do que um dia foi uma só onda. Houveram dilúvios,
salgamos a boca. Erguem-se continentes, a paisagem se transforma, geologia
dos corpos, mas meus olhos se voltam ao mar. Não é tarde pra falar de amor.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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