O Amor é Um Grito · página 65

Ricardo Estevão

MEU PRATO PREDILETO

Quando eu ainda não conhecia o seu gosto,
minha língua analfabeta ficava imaginando-o,
enquanto eu me perdia em palavras
para esconder o que engolia em silêncio:
o medo de jamais saber seu sabor.

Foi um tempo de sonho, espera e fantasia
em que eu quase fui feliz:
o impalpável me fazia estremecer,
e a poesia era um modo de já possuir
o que ainda não era meu.

Rememorar, pois, essa água na boca,
agora que seu gosto já se espalha em meu prato,
é como celebrar a saudade inexplicável de uma dor
que passou, mas continua:
cicatriz que não confirma a cura.

Seu gosto tem o mel de um remédio doce
E esse álcool que queima a língua,
“matando a sede na saliva”,
sem estancar meu apetite.

Seu sabor transita de você para mim
a fim de me habitar
por um tempo incalculável,
como se precisasse compensar
o jejum de eras atrás.

Nunca saciado... eu quero é mais.

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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