O Amor é Um Grito · página 27

Lígia Vaz Pol

MERGULHO TROPICAL

hoje sou um pouco mais poeta, amor
as palavras secam em ranhuras
quando escrevo pelo silêncio profano
análogos em tua moldura

rezo para que pintem os nossos nomes
sinônimo de tudo que dizem de nós
pacificamente caóticos
como as nossas transliterações sem voz

ainda que morra na primavera, tanta dor
que perpetue a vida dos azarados
todos esses que tiveram a sorte
de chorar por amor

ainda que os céus desenhem
que os teus olhos desviem do sol
e o doce só te molhe a boca com sal
Iemanjá para os meus fios de cobre caracol

me faça coral cinzento da morte
com os meus olhos que navegam sempre espertos
que descanse nas águas à espreita do bote
estarei mais uma vez a mergulhar em ti, decerto

Texto publicado na antologia O Amor é Um Grito.

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